A alopecia induzida por quimioterápicos é um dos efeitos colaterais mais temidos por pacientes em tratamento contra o câncer. O impacto estético frequentemente afeta a autoimagem e o bem-estar emocional durante uma fase de extrema vulnerabilidade. No entanto, o avanço da medicina integrativa e de suporte tem oferecido alternativas para mitigar essa perda, destacando-se a crioterapia capilar — popularmente conhecida como touca gelada.
O surgimento da alopecia decorre diretamente do mecanismo de ação dos quimioterápicos. Conforme esclarece a médica oncologista Sabina Aleixo, esses medicamentos têm como alvo biológico as estruturas celulares de rápida divisão.
“A quimioterapia age principalmente sobre as células que se multiplicam rapidamente, e as células responsáveis pelo crescimento do cabelo também têm essa característica. Por isso, acabam sendo atingidas pelo tratamento”, explica a médica. Ela ressalta, contudo, que nem toda quimioterapia provoca queda de cabelo e que a intensidade da queda varia de acordo com os medicamentos utilizados.
Para conter esse efeito, a crioterapia capilar atua por vasoconstrição e desaceleração metabólica local. Sabina detalha a dinâmica do procedimento.
“A touca resfria bastante o couro cabeludo. Com o frio, os vasos sanguíneos da região se contraem, fazendo com que uma quantidade menor do medicamento chegue até a raiz do cabelo. O frio também diminui a atividade das células do folículo. Com isso, os fios ficam menos expostos aos efeitos da quimioterapia”.
Estudos comprovam eficácia do resfriamento capilar
Pesquisas científicas internacionais comprovam a utilidade da técnica. Em um estudo clínico realizado majoritariamente com mulheres, o ensaio SCALP (Scalp Cooling Alopecia Prevention Trial), publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), demonstrou que aproximadamente metade das pacientes tratadas com toucas de resfriamento mantiveram mais de 50% de seus cabelos após ciclos de quimioterapia.
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do Metrópoles Saúde e Ciência
A taxa de sucesso oscila significativamente conforme o esquema medicamentoso administrado, atingindo resultados de preservação de até 65% a 100% em regimes baseados em taxanos, mas reduzindo sua eficácia frente a regimes com antraciclinas.
Em consonância com esses dados, Sabina pontua que cerca de metade dos pacientes consegue uma preservação significativa dos cabelos, podendo alcançar resultados melhores em alguns tratamentos. Contudo, a médica enfatiza que a touca não garante proteção universal.
“Ela pode diminuir bastante a queda de cabelo em alguns tratamentos, embora não consiga evitá-la completamente em todos os pacientes. Preservar o cabelo não significa necessariamente não perder nenhum fio. Pode ocorrer queda, mas em uma quantidade bem menor”.
Procedimento exige avaliação médica
O procedimento exige avaliação prévia, pois não é indicado para todos os diagnósticos. Sabina adverte que existem limitações clínicas, como em algumas neoplasias hematológicas, a exemplo de leucemias e linfomas. Por isso, a indicação deve ser analisada individualmente pelo oncologista.
Efeitos colaterais como dor de cabeça, sensação intensa de frio e desconforto local também podem ocorrer. A rotina de aplicação requer logística específica, demandando resfriamento prévio, durante e após as sessões de medicação, o que prolonga a permanência do paciente no centro infusional.
A eficácia do resfriamento também depende da saúde do couro cabeludo e de cuidados dermatológicos rigorosos. A dermatologista Andressa Vargas explica que a área deve estar íntegra, sem feridas ou processos inflamatórios importantes para o uso da touca, que precisa ficar bem ajustada e em contato uniforme com a pele, fator que interfere diretamente no resultado.
Durante todo o protocolo terapêutico, recomenda-se: “Minimizar agressões químicas, térmicas e mecânicas. Deve-se evitar ou reduzir tinturas, descolorações, alisamentos e outros procedimentos químicos, além de secador muito quente, chapinha e modeladores térmicos”, orienta Andressa.
Tratamentos adicionais tópicos, como minoxidil ou lasers de baixa potência, não têm indicação rotineira para prevenir a alopecia quimioterápica e devem ser postergados para a fase pós-tratamento, conforme avaliação médica.
Após a conclusão da quimioterapia, o recrescimento do cabelo costuma ser observado em cerca de 1 a 3 meses. A dermatologista destaca a ocorrência do fenômeno conhecido como cachos da quimioterapia: “É relativamente comum o cabelo inicialmente crescer diferente. Pode nascer mais ondulado ou cacheado, mais fino ou mais grosso e até apresentar alteração de pigmentação”.
Caso a recuperação dos fios permaneça incompleta após seis meses, a investigação com dermatologista torna-se essencial, conclui Andressa.
Fonte do Conteudo: Metrópoles – www.metropoles.com