Cada vez mais presente nas ruas do Rio de Janeiro, o transporte de passageiros em motocicletas deixou de ser uma alternativa restrita aos moto-táxis e passou a integrar a rotina de milhares de cariocas por meio dos aplicativos. A rapidez nos deslocamentos, o menor custo das viagens e a facilidade para escapar dos congestionamentos fizeram o serviço crescer de forma acelerada nos últimos anos.
Se, por um lado, a modalidade ampliou as opções de mobilidade e abriu uma nova fonte de renda para milhares de motociclistas, por outro trouxe um desafio cada vez mais evidente: o aumento dos acidentes envolvendo condutores e passageiros, com reflexos diretos na rede pública de saúde.
Dados da Prefeitura do Rio mostram a dimensão desse cenário. Entre janeiro e abril de 2026, a rede municipal registrou mais de 16 mil atendimentos relacionados a acidentes de trânsito. Desse total, aproximadamente 11 mil envolveram motociclistas ou passageiros de motos, o equivalente a cerca de 70% das vítimas atendidas nas emergências municipais.
Na prática, isso representa uma média próxima de 80 atendimentos por dia, transformando a segurança no trânsito em uma questão que ultrapassa a mobilidade urbana e passa a impactar diretamente o sistema público de saúde.
A preocupação levou a Câmara Municipal do Rio a aprovar, em primeira discussão, um projeto de lei que prevê a divulgação periódica desses indicadores, ampliando a transparência dos dados e oferecendo subsídios para a formulação de políticas públicas voltadas à redução dos acidentes.
Expansão do serviço supera capacidade de resposta do poder público
Para o presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego no Rio de Janeiro (ABRAMET-RJ), Dr. Egas Caparelli-Dáquer, a popularização do serviço aconteceu em ritmo superior à capacidade do poder público de adaptar a infraestrutura e os mecanismos de controle.

Segundo ele, a motocicleta possui características que a tornam naturalmente mais vulnerável do que outros veículos.
“A motocicleta é um veículo com menor estabilidade do que um veículo de quatro rodas e no qual os ocupantes estão muito mais expostos. Qualquer irregularidade na via pode provocar uma queda. Além disso, qualquer colisão representa um risco muito maior para o condutor e para o passageiro.”
Na avaliação do presidente da ABRAMET-RJ, a chegada dos aplicativos acelerou um processo que já vinha ocorrendo.
“Com a entrada dos aplicativos, esse crescimento ganhou uma proporção muito rápida, e o poder público não está conseguindo lidar com isso.”
Acidentes já impactam hospitais e bancos de sangue
Para Caparelli-Dáquer, o crescimento da frota sobre duas rodas deixou de ser apenas um tema ligado ao trânsito e passou a representar um problema de saúde pública.
Segundo ele, os reflexos são percebidos diariamente nas unidades hospitalares.
“A consequência disso aparece nos hospitais, na necessidade de sangue para transfusões, nas filas de cirurgias ortopédicas e nos serviços de emergência. O sistema não está dimensionado para atender essa demanda.”
O presidente da ABRAMET-RJ afirma que o problema não se resume ao número de mortes provocadas pelos acidentes.
As sequelas permanentes também geram impactos econômicos e sociais significativos.
“Claro que perder uma vida é a pior consequência possível. Mas, do ponto de vista econômico, uma pessoa que fica tetraplégica ou com uma lesão cerebral incapacitante pode representar um impacto ainda maior, porque precisará de cuidados permanentes ao longo da vida.”
Problema vai muito além da imprudência
Embora o comportamento dos motociclistas seja frequentemente apontado como principal causa dos acidentes, o médico afirma que essa explicação é insuficiente.
Segundo ele, há um conjunto de fatores que contribuem para o cenário atual.
Entre eles estão a baixa qualidade de parte da malha viária, sinalização deficiente, projetos urbanos inadequados, deficiência na formação dos condutores e uma cultura de insegurança presente entre todos os usuários das vias.
“Existe uma cultura de insegurança no trânsito. Não é apenas o motociclista. Motoristas, ciclistas e pedestres frequentemente adotam comportamentos de risco.”
Caparelli-Dáquer observa que, apesar das melhorias realizadas em algumas regiões da cidade, ainda existem muitos trechos com pavimento irregular, buracos e sinalização insuficiente, condições que aumentam o risco para um veículo que depende do equilíbrio para se manter em circulação.
Outro ponto destacado pelo presidente da ABRAMET-RJ é a formação dos condutores.
“A formação dos condutores ainda é muito precária. Falta conscientização sobre segurança viária.”
Na avaliação dele, campanhas educativas também precisam ser aperfeiçoadas para evitar interpretações equivocadas sobre prioridades no trânsito.
Passageiros também precisam conhecer os riscos
Questionado sobre os cuidados que quem utiliza esse tipo de transporte deve adotar, o médico fez uma recomendação direta.
“O principal conselho que dou é: não utilize motocicleta como meio de transporte sempre que houver outra alternativa.”
Segundo ele, o veículo reúne dois fatores que aumentam significativamente a gravidade dos acidentes: menor estabilidade e ausência de uma estrutura de proteção semelhante à existente nos automóveis.
Caparelli lembra ainda que muitos passageiros desconhecem que seu próprio comportamento interfere na estabilidade da moto.
Pessoas sob efeito de álcool ou determinados medicamentos, por exemplo, podem comprometer o equilíbrio durante curvas e manobras, elevando o risco de queda.
Outro aspecto pouco discutido, segundo ele, é o compartilhamento de capacetes.
Embora o uso de toucas descartáveis seja recomendado, Dr. Egas alerta que elas não eliminam completamente o risco de transmissão de alguns parasitas e doenças de contato.
Fiscalização precisa ser fortalecida
Na avaliação de Caparelli-Dáquer, campanhas de conscientização continuam sendo necessárias, mas não têm sido suficientes para reduzir os índices de acidentes.
“As campanhas são importantes, mas não estão sendo eficientes nem em número suficiente.”
Para ele, educação e fiscalização precisam caminhar juntas.
Mais do que ampliar o número de operações, Dr. Égas defende que os condutores compreendam que comportamentos perigosos geram consequências.
“As pessoas precisam entender que condutas erradas têm consequências. Mais do que punição, trata-se de responsabilização.”
Segundo ele, essa mudança de comportamento depende de uma atuação integrada entre os diferentes níveis de governo. Além de ampliar a fiscalização, ele defende investimentos na melhoria das vias, aperfeiçoamento da formação dos condutores e fortalecimento do transporte público, reduzindo a necessidade de recorrer às motocicletas como principal alternativa de deslocamento.
“É preciso melhorar as vias, fortalecer a fiscalização, investir em transporte público e criar uma verdadeira cultura de segurança no trânsito.”
Desafio é conciliar mobilidade e preservação de vidas
A tendência é que o transporte de passageiros em motocicletas continue crescendo nos próximos anos, impulsionado pela demanda por viagens rápidas e de menor custo. No entanto, essa expansão precisa ser acompanhada por políticas públicas capazes de reduzir a sinistralidade, preservar vidas e minimizar os impactos sobre o sistema de saúde.
Mais do que garantir deslocamentos ágeis, o desafio do Rio de Janeiro será construir um modelo de mobilidade que combine eficiência, acessibilidade e segurança para todos os usuários das vias.
Fonte do Conteudo: Marcio Curvello – diariodorio.com