
Em apenas três dias, três operações distintas resultaram na prisão de 36 policiais suspeitos de envolvimento com o crime organizado no Rio de Janeiro. As ações foram conduzidas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e evidenciam o avanço de facções criminosas sobre setores das forças de segurança.
No total, 19 agentes foram presos em operação do MPRJ contra policiais ligados ao jogo do bicho, enquanto outros 17 foram detidos pela Polícia Federal, incluindo um delegado da própria corporação. As investigações fazem parte de um conjunto de apurações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou a investigação de conexões entre facções, policiais e agentes políticos.
As prisões ocorreram nas três fases da Operação Anomalia, conduzida pela PF para apurar a atuação do Comando Vermelho dentro de estruturas do poder público.
Escolta para traficantes e proteção a eventos do tráfico
Na terça-feira (11), a terceira fase da operação teve como alvo o que investigadores descrevem como um braço armado de proteção do Comando Vermelho. Sete policiais militares foram presos sob suspeita de realizar escoltas para traficantes, inclusive em deslocamentos para consultas médicas e enterros.
Um dos episódios citados nas investigações envolve o influenciador Hytalo Santos, que teria recebido escolta de policiais durante participação no chamado “Baile da Escolinha”, evento promovido por traficantes no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio.
Segundo o relatório da PF, a ordem para que policiais garantissem a segurança do influenciador partiu de Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como um dos chefes do tráfico na região. O pedido teria sido feito ao policial militar Rodrigo Oliveira de Carvalho, identificado como líder do grupo.
Áudios obtidos durante a investigação indicariam conversas entre o traficante e o policial para organizar a escolta. Vídeos do evento mostram Hytalo, Índio do Lixão e o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, juntos na comunidade em julho de 2024. O material foi reunido originalmente na Operação Zargun, que levou à prisão do parlamentar e do traficante em setembro daquele ano.
O influenciador também acabou preso e posteriormente condenado a 11 anos e quatro meses de prisão por produção de conteúdo pornográfico envolvendo adolescentes.
Núcleos da organização criminosa
As investigações são conduzidas pelos delegados federais Geraldo Almeida e Samuel Escobar, integrantes da força-tarefa Redentor II, criada para investigar a infiltração de facções criminosas em estruturas públicas.
Segundo os investigadores, as operações Zargun e Oricalco permitiram identificar três núcleos de atuação do Comando Vermelho: um político, um policial e outro operacional ligado ao tráfico.
“As operações desta semana estão diretamente vinculadas à ADPF 635. A Polícia Federal recebeu a missão específica de investigar o envolvimento de agentes públicos e políticos com facções e organizações criminosas no Rio”, afirmou o delegado Almeida.
O inquérito tramita no STF sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. De acordo com a PF, a equipe da força-tarefa reúne policiais de diversos estados com experiência em investigações sobre organizações criminosas e lavagem de dinheiro.
Ex-secretário apontado como elo político
Durante o aprofundamento das investigações, a PF identificou um elo considerado central entre o traficante Índio do Lixão e o núcleo político da organização.
Segundo os investigadores, esse papel seria desempenhado pelo advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor. Ele já havia sido preso anteriormente ao lado de TH Jóias e do próprio traficante. Carracena voltou a ser alvo de mandado de prisão na segunda-feira (9), na primeira fase da Operação Anomalia.
Na mesma etapa também foi preso o delegado federal Fabrizio Romano. A investigação aponta que Índio do Lixão teria interesse em manter um traficante internacional no Brasil e que o delegado teria cobrado R$ 150 mil para impedir a saída do criminoso do país. A advogada do traficante também foi presa.
Extorsão e propina milionária
A segunda fase da Operação Anomalia teve como alvo policiais civis da 44ª Delegacia de Polícia (Inhaúma). Foram presos o delegado Marcos Henrique de Oliveira Alves, seu irmão, o comissário Franklin José de Oliveira Alves, e o agente Leandro Moutinho de Deus.
De acordo com o inquérito, os policiais são acusados de coagir e extorquir chefes do Comando Vermelho. A investigação aponta que Franklin, “sob o comando do irmão”, teria exigido R$ 1,5 milhão de Índio do Lixão para encerrar uma investigação contra o traficante.
“As operações demonstraram que as facções criminosas do Rio têm integrantes vinculados direta ou indiretamente a agentes políticos e a policiais com desvio de conduta”, afirmou o delegado Samuel Escobar.
Operação do MPRJ mira ligação com o jogo do bicho
Paralelamente às ações da Polícia Federal, o Ministério Público do Rio realizou uma operação que levou à prisão de 19 policiais suspeitos de ligação com o jogo do bicho. Os agentes são acusados de integrar um esquema de proteção à contravenção.
Já os policiais militares presos pela PF poderão responder por organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A sequência de operações, concentradas em apenas três dias, expôs a dimensão das suspeitas de infiltração do crime organizado em setores das forças de segurança do estado.
Fonte do Conteudo: Wilson França – diariodorio.com