Como uma pequena igreja do Centro do Rio virou referência nacional na recuperação de arte sacra

A recente restituição de novas peças sacras à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores consolidou algo que já vinha se desenhando há alguns anos: a pequena igreja de irmandade localizada no coração do Centro do Rio transformou-se, no período, no principal case brasileiro de recuperação de bens culturais procurados. O episódio, que envolveu a atuação da Polícia Federal, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da própria irmandade, não é fruto do acaso, nem de uma descoberta fortuita. É resultado direto de um ecossistema de preservação que combina inventário, documentação histórica, pesquisa continuada, diálogo institucional e vigilância cotidiana.

O primeiro elemento dessa engrenagem é a informação. Poucos acervos religiosos brasileiros possuem um histórico documental tão consistente quanto o da Lapa dos Mercadores. A irmandade mantém inventários e registros sistemáticos há décadas, incluindo um importante livro de registro elaborado em 1947. Paralelamente, o IPHAN fotografou profusamente o monumento desde meados do século XX, produzindo uma documentação visual que hoje se revela decisiva na identificação de peças desaparecidas. Mais tarde, já nos anos 2000, o conjunto foi objeto de inventário no âmbito do Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados. Ainda assim, é importante reconhecer: nenhuma dessas ações, isoladamente, seria suficiente para resolver a maior parte dos casos, sobretudo porque o templo sofreu graves perdas e dispersões ao longo de intervenções ocorridas durante o século XX. O que faz diferença é justamente a sobreposição de camadas documentais ao longo do tempo.

Há também um componente humano decisivo nessa história. O provedor da irmandade, Claudio André de Castro, tornou-se um pesquisador obstinado da trajetória do próprio acervo e acompanha, praticamente todas as madrugadas, leilões e certames virtuais em busca de peças suspeitas. Esse monitoramento contínuo — que exige conhecimento iconográfico, familiaridade com o mercado e domínio da documentação histórica — ajuda a explicar por que tantos objetos vinculados à igreja foram localizados nos últimos anos. Não se trata apenas de reconhecer uma peça “parecida”, mas de cruzar informações, identificar marcas de procedência e estabelecer vínculos materiais e documentais sólidos.

O terceiro ponto talvez seja um dos mais relevantes — e também um dos mais mal compreendidos pelo senso comum. O mercado de arte e antiguidades mudou muito nos últimos anos. Se houve um tempo em que predominavam relações mais opacas e uma certa tibieza institucional, hoje a tendência é de crescente profissionalização e transparência. Comerciantes sérios não desejam negociar peças roubadas, furtadas ou de procedência duvidosa. Ao contrário: ética, rastreabilidade e segurança jurídica tornaram-se elementos fundamentais do próprio funcionamento do mercado. Isso permitiu a construção de pontes duradouras entre negociantes, colecionadores, órgãos de proteção e instituições religiosas. Os bons comerciantes compreenderam que patrimônio ilícito compromete não apenas reputações individuais, mas a credibilidade de todo o setor.

Nesse cenário, plataformas digitais de controle e inventário passaram a desempenhar papel estratégico. O Banco de Bens Culturais Procurados (BCP) do IPHAN consolidou-se como verdadeira ferramenta de consulta pública e investigação, permitindo verificar rapidamente a situação de peças desaparecidas. Ao lado dele, iniciativas como o inventário desenvolvido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro e a futura disponibilização pública da base do Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados do IPHAN tendem a aprofundar ainda mais esse processo. Esses sistemas funcionam, na prática, como marcos de procedência, ajudando a estabelecer vínculos históricos e documentais entre objetos e seus locais de origem.

Mas talvez o dado mais promissor dessa história seja outro: a Igreja Católica decidiu entrar efetivamente em campo na pauta da preservação. A percepção de que inventariar, identificar e difundir o patrimônio não é luxo acadêmico, mas estratégia concreta de salvaguarda, começa a ganhar capilaridade entre dioceses, irmandades e comunidades.

Ontem mesmo participei da capacitação “Inventário e Preservação do Patrimônio Cultural — Teoria e Prática”, promovida pela Diocese de Barra do Piraí/Volta Redonda, realizada em Barra Mansa. O Centro Diocesano de Formação Cristã ficou lotado. E isso, por si só, já diz muito. A Diocese, que abrange boa parte do Sul Fluminense e reúne dezenas de templos tombados ou de interesse cultural, compreendeu algo fundamental: preservação só se sustenta quando o léxico da identificação, da documentação e da salvaguarda passa a integrar o cotidiano das comunidades.

É justamente aí que reside a grande lição da Lapa dos Mercadores. O patrimônio não se protege sozinho. Nenhum órgão de fiscalização, nenhuma plataforma digital e nenhum inventário, por mais sofisticados que sejam, substituirão o envolvimento cotidiano dos detentores, pesquisadores, comerciantes éticos e comunidades.

O maior case brasileiro de recuperação de bens culturais procurados nasceu, no fundo, da combinação entre memória acumulada e vigilância compartilhada.

E talvez seja exatamente este o caminho para o futuro da preservação.

Nota do EDITOR: A cerimônia de retorno das peças ao altar da Igreja dos Mercadores ocorrerá no sábado, dia 23/5, às 12h15, e contará com Grande Coral e Orquestra Completa, além da presença de autoridades do Iphan e da Cultura.

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Fonte do Conteudo: Rafael Azevedo – diariodorio.com

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