
Na última segunda-feira (01/09), iniciando a semana de festividades de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores – padroeira dos comerciantes cariocas, no Centro do Rio – com a participação do Cardeal D. Orani João Tempesta, foi entronizada uma nova imagem da padroeira primitiva da igreja, cujo exemplar original foi furtado entre os anos 1980 e 1990. O ápice da festa se dará amanhã (segunda-feira – 08/09), com a Missa Solene (acompanhada de coral e grande orquestra) às 12h15.
Entalhada pelo escultor mineiro Carlos Calsavara, de São João del-Rei/MG, a réplica — de requintado ornamento e minucioso detalhamento escultórico — representa com dignidade o objeto mais importante do templo: o orago primitivo. Ao mesmo tempo, a peça materializa uma questão que vimos discutindo nesta coluna há alguns meses: a insistência de órgãos de patrimônio, universidades e especialistas em ignorar a magnífica produção da arte tradicional no país, responsável por manter vivo o chamado ‘barroco brasileiro’ e por abastecer tanto o mercado quanto as igrejas. Enquanto subestimarmos essa produção — eminentemente popular, ainda que por vezes erudita, enraizada nas tradições vernaculares e vetor de desenvolvimento econômico e geração de empregos — continuaremos entregando de bandeja tais escolas regionais e suas obras ao exotismo do mercado, sempre ávido não por um novo Aleijadinho, mas, quem sabe, por um ‘Aleijadérrimo’ para ornar o peristilo da mansão de algum magnata da alta sociedade.
Portanto, que esse nosso barroco — eminentemente nacional e popular, em contraste com o barroco histórico de caráter internacional — seja devidamente valorizado, catalogado e colocado ao alcance do conhecimento e da fruição de toda a população. Que se imprima o sentido de urgência necessário a essa valorização, para que artistas como Carlos Calsavara também possam ocupar os grandes museus, assim como o fazem tantos outros pintores e escultores contemporâneos prestigiados nas fileiras acadêmicas e curatoriais, muitas vezes elitistas e distantes da verdadeira arte que emana dos polos criativos espalhados pelo país.
Por outro lado, a fabricação e devolução solene da réplica de um objeto tão simbólico nos impele a perguntar: e o original? Quando o reencontraremos? Onde foi parar?
Hipóteses não faltam, mas a resposta correta, por ora, é que simplesmente não sabemos. Cerca de 300 outras peças desapareceram da igreja entre as décadas de 1980 e 1990, antes dos inventários sistematizados iniciados pelo Iphan, por meio do Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados (INBMI).
Outras iniciativas de catalogação — como as realizadas pela Arquidiocese do Rio de Janeiro nos últimos três anos, com apoio do BNDES; aquelas desenvolvidas pelo Inepac (já digitalizadas em http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bem_movel); e as do próprio Iphan, que deve lançar ainda este ano sua plataforma de inventário digital —, somadas aos bancos de bens culturais procurados (BCP), hoje disponíveis tanto no portal do Inepac quanto do Iphan, poderão e deverão contribuir para a recuperação de muitos de nossos bens desaparecidos, entre eles a padroeira aqui em epígrafe. Entre 2023 e 2025, com o apoio decisivo do provedor da Irmandade da Lapa dos Mercadores, Claudio André de Castro, da Polícia Federal e do Iphan, cerca de uma dezena de objetos já foi restituída à igreja ou encontra-se em processo de devolução.
Além disso, não obstante os exemplos de boas práticas mencionados, é urgente retomar os inventários em todas as esferas da administração pública, bem como entre os detentores privados, já que igrejas como a da Lapa dos Mercadores — inventariada tanto pelo Iphan quanto pela ArqRio — constituem um raro exemplo de salvaguarda. Mais de 90% das coleções tombadas no país ainda não foram inventariadas. Há, portanto, um vasto trabalho a ser realizado!
Outro ponto a destacar nesta iniciativa exemplar da Irmandade e da Liga de Devotos da Lapa dos Mercadores é que, no Brasil — onde o orçamento da cultura jamais se aproximou de dois dígitos percentuais do erário —, limitar-se a contemplar ruínas ou fotografias em preto e branco de bens subtraídos é exatamente o que desejam os incautos, para que a preservação siga relegada ao fim da fila orçamentária. Salvo casos muito específicos, o que foi danificado deve ser requalificado, com a devida transparência em indicar a substituição dos elementos originais, a fim de evitar falsos históricos. Caso contrário, continuaremos a apagar nossa história e a reescrever nossa memória com a tinta da negligência, da ideologia de ocasião e do esquecimento — quase sempre dolosos.



Fonte do Conteudo: Rafael Azevedo – diariodorio.com
