A aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLC) 92/2025 na Câmara do Rio de Janeiro aumentou a mobilização de moradores contrários à chamada Praça Onze Maravilha, proposta da prefeitura para requalificar a região de Praça Onze, Cidade Nova, Estácio e entorno do Sambódromo. Neste domingo (17), o movimento “Rio Sem Espigões” lançou um abaixo-assinado online contra o projeto, que até a tarde desta segunda-feira (18) havia reunido 1.041 assinaturas. A previsão, segundo assessoria da Câmara do Rio, é que a proposta volte ao plenário para segunda discussão ainda esta semana, entre terça e quinta-feira.
O PLC, também chamado de Reviver Centro 2, foi enviado pela prefeitura à Câmara em dezembro de 2025 e prevê a criação da Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) Praça Onze Maravilha. Entre as intervenções previstas estão a demolição do Elevado 31 de Março, a implantação de uma nova avenida, a construção do Parque do Porto e da Biblioteca dos Saberes e a integração urbanística do Sambódromo ao entorno. O investimento estimado é de R$ 1,75 bilhão, com financiamento previsto por meio de parcerias público-privadas (PPPs) e capital privado.
Os integrantes do “Rio Sem Espigões”, no entanto, afirmam que o projeto abre caminho para a ampliação de gabarito em até 90 bairros da cidade por meio do mecanismo de operação interligada, previsto no texto. O instrumento permite transferir potencial construtivo gerado por empreendimentos da área da Praça Onze para outras regiões do município, incluindo bairros como Copacabana, Ipanema, Leblon, Botafogo, Lagoa, Tijuca, Praça da Bandeira e em bairros da Zona Norte.
A arquiteta e urbanista, Isabelle de Loys, uma das representantes do movimento, diz que a mobilização surgiu a partir dos debates sobre novos empreendimentos em Ipanema ainda em 2024, durante sua campanha para vereadora. Segundo ela, denúncias sobre sombreamento causado por prédios na orla motivaram um primeiro abaixo-assinado, que reuniu 3,7 mil assinaturas e foi encaminhado ao Ministério Público. O grupo pretende estar presente na votação do projeto em segunda discussão na Câmara.
“Na época, havia um empreendimento projetado para chegar a 80 metros. Depois das denúncias e da repercussão, ele foi reduzido para 61 metros. Foi uma conquista. Hoje, só em Ipanema, já temos 32 empreendimentos previstos ou em construção. Agora, com o Reviver Centro 2, isso tende a se ampliar para dezenas de bairros.”, afirma Isabelle.
Ela diz que o movimento reúne atualmente cerca de 80 participantes e associações de moradores de bairros como Ipanema, Leblon, Copacabana, Gávea, Jardim Botânico, Botafogo e Horto. De acordo com a arquiteta, além do abaixo-assinado, moradores passaram a aderir a um protesto simbólico com panos pretos pendurados nas janelas dos edifícios.
Procurada, Regina Chiaradia, presidente da Associação de Moradores de Botafogo, disse que enviaria uma carta contrária ao projeto aos vereadores nesta segunda-feira. O grupo critica ainda a falta de estudos de impacto ambiental e de vizinhança e afirma que a verticalização pode agravar problemas de infraestrutura urbana, saneamento, trânsito e fornecimento de energia. Isabelle também aponta preocupação com processos de gentrificação e com o avanço de empreendimentos voltados para aluguel temporário. “Você começa a expulsar moradores dos bairros. Os conjugados praticamente desapareceram em algumas áreas. Tudo vai virando estúdio para Airbnb. E a infraestrutura da Zona Sul não foi planejada para dezenas de novos empreendimentos ao mesmo tempo.”, afirma.
A prefeitura, por sua vez, sustenta que o projeto busca promover uma transformação urbana estruturante em uma área considerada estratégica da cidade, ampliando a oferta de moradia e fortalecendo a atividade econômica do Centro. Em audiências e reuniões realizadas na Câmara, representantes do Executivo afirmaram que não há previsão de remoções de moradores.
“Em momento algum o projeto considerou áreas desapropriadas para criar valor para a operação ou pensamos em fazer empreendimentos em cima de áreas hoje ocupadas. As áreas que a gente coloca no projeto são criadas a partir de áreas públicas, terrenos que vão ser da prefeitura, bem como áreas que venham a ser liberadas a partir da demolição do Elevado 31 de Março.”, afirmou o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Gustavo Guerrante, durante reunião técnica com vereadores.
Fonte do Conteudo: Mateus Aguiar – diariodorio.com