crise provocou corte de 43 mil empregos em 16 anos

O Grupo Casas Bahia cortou 43 mil postos de trabalho desde 2010, quando a empresa passou por uma mudança expressiva ao se unir à rede Ponto Frio. Tal contingente poderia lotar estádios de futebol como o do Palmeiras, em São Paulo, ou o Engenhão, no Rio.

É isso o que mostra um levantamento feito pelo Metrópoles com base na análise dos balanços divulgados pelo grupo, que pediu recuperação judicial no domingo (16/8), para negociar dívidas estimadas em R$ 17,3 bilhões.

O relatório financeiro do quarto trimestre de 2010 aponta que a companhia contava com 63.320 funcionários. Atualmente, segundo informações presentes no pedido de recuperação judicial, o grupo tem cerca de 20 mil trabalhadores. Daí a redução de 43,3 mil empregados, com cortes que resultaram tanto da digitalização como da crise que atingiu a companhia.

Se considerados os últimos dez anos, os números não são menos impressionantes. No primeiro trimestre de 2016, o total de trabalhadores era de 50.530. Nesse caso, a redução foi de pouco mais de 30 mil postos de trabalho na comparação com o quadro atual.

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do Metrópoles

O último corte maciço na Casas Bahia foi anunciado neste mês. Em agosto, foram demitidos 3 mil funcionários. A empresa também afirmou que fecharia quase 300 lojas.

RJ no varejo

À primeira vista, o varejo passa por uma crise generalizada, somando-se à Casas Bahia os recentes casos de pedidos de recuperação judicial da Marabraz e da Tok&Stok, do Grupo Toky, que também inclui a Mobly. Mas a situação, embora não seja animadora, não é tão ruim.

Dados do Monitor RGF-Bizdoc confirmam um crescimento do número de empresas de varejo em recuperação judicial. De junho de 2025 a junho de 2026, o total de companhias nessa situação saltou de 819 para 986 empresas, o que resultou em uma alta de 20,4% em 12 meses.

Falências

O varejo, contudo, tem a menor proporção de empresas em recuperação judicial entre os grandes setores da economia. No caso, trata-se de 0,16 processo para cada mil firmas ativas. A média nacional é de 0,30.

As varejistas, no entanto, lideram o mesmo ranking quando o assunto é falências. São 686 empresas que fecharam as portas para 986 em recuperação judicial. Isso resulta em uma falência para cada 1,4 recuperação.

Endividadas

O consultor Alberto Serrentino, especialista em varejo, observa que o problema não é o setor, mas grandes companhias do segmento altamente endividadas (ou “alavancadas”, no jargão). “O varejo está crescendo no Brasil”, diz. “Existem várias empresas em dificuldade, com muitas delas tomando medidas extremas como a recuperação judicial, e essa situação está relacionada ao longo ciclo de juros altos.”

Serrentino nota que, no geral, a situação é diferente. Ele cita que o ranking com as 300 maiores empresas do setor, que representam cerca de metade do varejo brasileiro, mostra avanços ano a ano, tanto na base de lojas como no número de funcionários. O levantamento é feito pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT).

Avanço

A última pesquisa, divulgada no ano passado, trouxe dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontando que o varejo restrito (que exclui automóveis e materiais de construção) aumentou sua receita real em 4,1%, com um crescimento de 8,2% na receita nominal em 2024. Já o Varejo Ampliado (que inclui os dois segmentos) apresentou uma alta de 3,7% na receita real e de 7,1% na receita nominal.

O crescimento de 4,1% do volume de vendas do varejo restrito foi o maior desde os 8,4% de 2012. A máxima nesse período havia sido de 2,3%, anotada em 2018.

No caso do ramo de móveis e eletrodomésticos, no qual se enquadra o Grupo Casas Bahia, houve uma expansão de 4,1% em 2024, o quádruplo do crescimento de 1% do ano anterior. O desempenho positivo de 2024 e 2023 praticamente colocou o setor no patamar de vendas de 2021, uma vez que a atividade teve uma queda de 6,7% em 2022, durante a pandemia.

Origem da crise

No pedido de recuperação judicial, a Casa Bahia alega que parte relevante da crise atual remonta ao período subsequente à associação com o Ponto Frio. O processo de união entre as empresas começou em 2010.

Tal mudança, diz a empresa, foi marcada pelo desafio de integração de operações de grande porte e pela necessidade de adaptação à transformação digital do mercado varejista. Esse cenário exigiu, a partir de 2019, pesados investimentos em tecnologia, logística e marketplace.

Covid-19

Em meados de 2020, a pandemia mundial de Covid-19, diz o pedido de RJ, provocou o fechamento temporário das lojas físicas (historicamente um dos principais canais de venda e de concessão de crediário da empresa). Além disso, aumentou a necessidade de acelerar a estratégia digital.

A empresa afirma ainda que a fase inicial do processo de intensificação dos investimentos em digitalização aconteceu em um ambiente de juros baixos, com a taxa Selic em 2% ao ano. Em 2021, porém, o cenário mudou. A Selic saltou para 13,75%, chegando a 15% em 2025.

Por fim, o aumento das taxas de juros, somado à inflação acumulada no período, comprimiu a renda disponível e o poder de compra das famílias. “O cenário de fragilidade” resultou, em meados de 2023, na “necessidade de adoção de reestruturação operacional”.

Com isso, ainda em 2023, foram adotadas medidas drásticas como o fechamento de 55 lojas deficitárias. As demissões somaram 8,6 mil e houve um corte de mais de R$ 1 bilhão em estoques. Isso além da queda de 60% dos investimentos e a readequação de centros de distribuição.

O Metrópoles entrou em contato com a Casas Bahia, que não quis se pronunciar sobre o tema. A companhia enviou a seguinte nota:

“A companhia informa que o processo de reorganização envolve diferentes frentes e períodos, e os documentos apresentados no pedido de recuperação judicial contemplam informações mais amplas sobre os desligamentos realizados. Destaca ainda, que medidas adotadas foram necessárias para adequar a estrutura ao novo dimensionamento da operação. A companhia mantém seu foco na execução do plano e na continuidade de suas operações.”

Fonte do Conteudo: Metrópoles – www.metropoles.com

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