Era um dia cansado. Há dias em que o pensar desiste. São as pernas que nos comandam, obedientes aos relógios. Estava apressado, quando cheguei ao aeroporto. Saindo de um destino frio, embora acalorado de afetos. O cansaço, suspenso durante os encontros, veio ao meu encontro quando da chegada ao aeroporto.
No habitual deixar a mochila com as roupas e outros itens de viagem na esteira, deixei também uma caixa, presente do encontro. Foi quando uma mulher, que trabalha na segurança, no raio x do aeroporto, fez a pergunta: “É frágil”?. Respondi: “É um livro”. Ela sorriu e disse: “Então, é precioso”. Sorri mais ainda e agradeci. Peguei a mochila e o livro acalentado na caixa de papelão e descansei de outros pensamentos pensando na frase da mulher.
Um livro é precioso. É precioso, sim.
Sentado no avião e olhando pela janela o despedir de mais um dia, agradeci aos livros que apresentaram tantas janelas na minha alma. Desde os tempos em que, em um asilo, uma senhora me emprestava livros. Desde o tempo em que a mesma senhora pedia que eu lesse em voz alta as histórias que ela lia antes da incômoda cegueira. Foi uma infância entre velhos e livros. Digo velhos porque é como eles se diziam. Naquele asilo. Naquele tempo. Achavam mais poético que outro dizer.
Os livros nos ajudam a esquecer, quando esquecer nos parece impossível. Quando esquecer nos parece o melhor a fazer. Quando o esquecer é, no início, duro e, depois, aliviador. E os livros nos ajudam a lembrar. Quantas memórias lindas oferecem paz, quando sou capaz de suspender ruminações ruins. Quando sou sábio o suficiente para limpar o que passou.
No avião, olhando pela janela, agradeci o dia em que escrevi o meu primeiro livro. Agradeci os medos. Agradeci os que compreenderam as minhas rasuras e a minha insistência em partilhar autenticidades. Quando crio personagens, sou eu. Mesmo as que são completamente diferentes de mim. Mesmo as que fazem o que eu não faria. Sou eu. Quando falo em primeira ou em segunda ou em qualquer pessoa, sou eu. Sou eu do que eu vivi e sou eu dos livros que eu li. Quando escrevo poema ou prosa, sou eu. Quando faço críticas ou elogios, quando erro e quando acerto, sou eu. Sou eu, também, do que ouvi daquela mulher. Daquela mulher, as divagações. Foi depois de uma palestra sobre o tempo que passa e o tempo que fazemos permanecer.
Na esteira, estavam passando a mochila e a caixa. Quando, então, ela pergunta da fragilidade e depois de saber, usa a semântica de “precioso” ao se referir a um livro, ela resume a vida. Afinal, quem de nós teria a arrogância de dizer que a nossa humanidade é livre da fragilidade? Talvez seja a fragilidade um sopro que a faz livre. Voamos como as palavras, quando as palavras se sabem preciosas.
Gosto dos encontros, porque encontro neles palavras que me cabem. Gosto do mundo onde cabem os livros e onde dos livros nascem caminhos frágeis e preciosos. Onde nascem amores frágeis e preciosos. Onde nasce o nascimento de dias, de intenções e até de despedidas. De cada lugar aonde vou, tento trazer algum tom que permaneça em algum canto dentro de mim. Por isso, gosto de voltar e de dizer novamente palavras.
Eu, servo que sou da palavra, sei o seu poder. Aquela mulher, naquele aeroporto, com aquela pergunta e resposta, me descansou.
Fonte do Conteudo: redacao@odia.com.br (Gabriel Chalita) – odia.ig.com.br