Quando o Rio tinha laranjais: a história esquecida do Sertão Carioca engolido pela urbanização

RJ 23-03-2023 – Tanguá Laranja – O doce sabor da Laranja do Estado do Rio. Fotos Luis Alvarenga

Muito antes de condomínios, vias expressas, galpões logísticos e quilômetros de asfalto avançarem pela Zona Oeste, o Rio de Janeiro possuía um verdadeiro sertão agrícola dentro da própria capital da República. Um território de lavradores, pequenos sítios, criação de animais, plantações de hortaliças e extensos laranjais que abasteciam a cidade e davam ao então Distrito Federal uma paisagem hoje quase inimaginável para o carioca moderno.

Esse mundo desaparecido — chamado por jornais, cronistas e pesquisadores de “Sertão Carioca” — ocupava vastas áreas de Campo Grande, Guaratiba, Santa Cruz, Mendanha, Jacarepaguá e Vargem Grande. E sua história, hoje praticamente apagada da memória urbana da cidade, ajuda a compreender não apenas a expansão do Rio rumo ao Oeste, mas também o preço humano, cultural e paisagístico da urbanização acelerada do século XX.

O tema é abordado pelo historiador Leonardo Soares dos Santos no trabalho “A história dos conflitos de terra no Sertão Carioca (1940-1964): aspectos de uma memória camponesa da região”, apresentado na ANPUH, e revela um Rio de Janeiro profundamente diferente daquele que hoje conhecemos.  

Naquele tempo, ainda existia uma convivência quase surreal entre o rural e o urbano. O cronista Gastão Cruls descrevia homens vivendo “numa vida quase tão primitiva e rústica como a dos caboclos”, enquanto automóveis passavam diante de casas de pau-a-pique e turistas compravam cachos de banana e pencas de laranja diretamente dos agricultores.  

Era um Rio que poucos cariocas de hoje conseguiriam reconhecer. As atuais regiões de Vargem Grande, Campo Grande e Guaratiba, hoje associadas a condomínios, expansão imobiliária e corredores viários, eram vistas como parte do “cinturão verde” da capital federal. Segundo jornais da época, aquela produção agrícola chegava a responder por cerca de 40% do abastecimento do então Distrito Federal.  

O símbolo máximo daquele mundo agrícola era a laranja. Se nas décadas de 1930 e 1940 o Rio viveu a chamada “febre da laranja”, os anos seguintes testemunhariam algo completamente diferente: o avanço dos loteamentos sobre as terras agrícolas.   O próprio trabalho mostra que a expansão urbana da Zona Oeste já não acontecia apenas “de lote em lote”, como nos antigos subúrbios cariocas, mas através da criação de grandes loteamentos inteiros, alguns deles equivalentes a novos bairros.  

O Rio moderno começava a nascer sobre a destruição silenciosa do antigo Sertão Carioca. E o mais impressionante é perceber como esse processo já era denunciado nos jornais há mais de 70 anos.

Em 1951, um periódico descreveu a destruição de plantações por tratores como a ação de “um monstro” que “devora, tal como um monstro, centenas de pés de laranjas, carregados de frutos”.   Outro jornal lamentava que “dentro de dez anos” não restaria praticamente nenhuma terra cultivada na região, diante da expansão dos loteamentos.  

Hoje, olhando retrospectivamente, sabe-se que aquelas previsões estavam longe do exagero. O Sertão Carioca praticamente desapareceu. Mas talvez o aspecto mais fascinante dessa história seja que ela não pode ser reduzida a uma simples disputa econômica. O que se perdeu ali não foram apenas áreas agrícolas: foi um modo de vida inteiro.

O trabalho mostra que muitos agricultores passaram a viver permanentemente sob a expectativa do despejo.   A insegurança era tamanha que muitos deixavam de investir em culturas permanentes ou em moradias mais sólidas. Em Vargem Grande, por exemplo, pesquisadores registraram lavradores portugueses vivendo em casas improvisadas com madeira retirada de caixas de cebola e cobertas de zinco ou sapê.  

Havia ali uma sensação permanente de transitoriedade, como se aqueles homens já percebessem que o avanço urbano acabaria por engolir aquele mundo rural.

Ao mesmo tempo, outras partes ainda preservavam sinais de estabilidade agrícola. Árvores frutíferas, pequenas criações, galinheiros e roças permanentes ainda marcavam algumas áreas mais afastadas dos loteamentos.  

É justamente essa coexistência entre dois mundos que torna a história do Sertão Carioca tão poderosa. O Rio de Janeiro do pós-guerra parecia dividido entre o impulso inevitável da modernização urbana e a permanência de um Brasil rural que sobrevivia dentro da própria capital federal.

E é importante notar que a urbanização da Zona Oeste não foi um fenômeno simples. O crescimento da cidade era, em muitos aspectos, inevitável. O Rio crescia demograficamente, expandia sua malha urbana e buscava novas áreas de ocupação. O próprio mercado imobiliário teria papel decisivo na formação da cidade moderna.

Mas o que o estudo revela é que essa transformação ocorreu frequentemente de forma desordenada, conflituosa e traumática para parte da população rural da região.  

Os jornais da época falavam em “grileiros”, “assaltantes de terras” e “aventureiros”, enquanto descreviam um ambiente de medo, disputas fundiárias e insegurança permanente.   Ainda que muitas dessas reportagens carregassem o tom político característico do período, elas ajudam a revelar a dramaticidade daquele momento histórico.

Mais do que um simples avanço urbano, a expansão imobiliária transformou radicalmente a própria identidade da região. Talvez por isso o termo “Sertão Carioca” cause hoje tanto espanto.

Afinal, poucos imaginam que a cidade internacionalmente conhecida por Copacabana, pelo Corcovado e pelas praias já teve, dentro de seus próprios limites, um vasto território agrícola de aparência quase interiorana. Um lugar de laranjais, pequenas chácaras, estradas de terra, criação de animais e lavradores portugueses espalhados pelos arredores da capital da República.

O desaparecimento desse Rio rural talvez explique também uma característica muito carioca: a velocidade com que a cidade apaga seus próprios mundos anteriores.

Sob avenidas, loteamentos e condomínios da Zona Oeste repousa hoje uma paisagem esquecida — a do antigo Sertão Carioca, onde durante décadas homens viveram da terra, cultivaram laranjas e abasteceram uma cidade que crescia depressa demais para olhar para trás.

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Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com

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