Somos muitas. Muitas e únicas. Mães de sol a sol, de areia nos pés e mar nos olhos. Mães da terra, da rede, da reza. Mães que plantam, pescam, lavam, cuidam. Mães de toda natureza. Mães que amam com a força de um rio e resistem com a firmeza de uma rocha.
Eu trago viva a memória da avó Ana, que enchia o prato vazio com água, sal e pimenta para disfarçar a fome dos filhos. E de Dona Palmeirina, minha mãe, que foi lavadeira, pescadora, catadora de lenha, cozinheira, merendeira, cuidadora de tudo e todos. É dessas mulheres que estamos falando. É com elas, e tantas outras como elas, que construímos o chão de tantas mães.
E foi no chão mesmo, na beira da praia, na areia, na maré baixa, que, essa semana, encontramos outras duas mães, que carregam nas mãos marcas do trabalho e, no olhar, a ternura de quem nunca desistiu da vida: Dona Nega e Dona Maria.
Dona Nega, aos 75 anos, dobra o corpo sobre a areia em busca de conchas catadas uma a uma. “A gente vende por copo”, diz ela. Não é metáfora, é sustento. Vive daquilo que o mar lhe dá, e não romantiza isso. “Dá pra fazer um dinheirinho.” Mas não é só por dinheiro. É por movimento. É por dignidade. “Ando do jeito que eu quero, como o que eu quero, bebo o que eu quero. Pago minhas contas em dia. Não devo nada a ninguém. Estou vivendo.”
Entre risos e lembranças, contou que só tinha medo de uma coisa: atravessar a ponte velha de pau para ir até a Pedra do Descanso, onde lavava roupa e trazia as latas d’água na cabeça para vender e beber. Com alegria, recorda os fechos de lenha que carregava, as redes arremessadas no rio em busca de peixe. Uma vida de lida, de doação, de entrega. Quanta lembrança, quanta força em cada detalhe que ela revive.
Mais à frente, outra cena de resistência: Dona Maria, 66 anos, 46 deles vividos em Piúma. Ela cata búzios na areia da manhã, sob o sol que brônzea a pele queimada. Mas o que parece distração é, na verdade, arte. Com as mãos, transforma aqueles pequenos fragmentos do mar em pulseiras, brincos. “Eu mesmo que fabrico”, diz com orgulho. Um rapaz leva as peças para vender em São Paulo, Santa Catarina e Salvador. O trabalho sai dali, de dentro do mar e da alma.
“É quase uma terapia”, ela confessa. E é mesmo. No silêncio do cata-cata, a dor some, a cabeça se aquieta. O ofício se intensificou quando se aposentou, porque ficar parada, pra ela, nunca foi opção. E o serviço é bruto: cortar, torrar, clorar, montar. Dez reais a dúzia. Não é muito. Mas é o suficiente quando o que se quer mesmo é dignidade.
Não é vida fácil. Não tem glamour. Tem força. Tem suor. Tem maré. Tem amor. É assim que susteou três filhos.
Neste Dia das Mães, os nomes de Dona Nega e Dona Maria se somam ao de tantas outras mães do Brasil profundo, que a TV não mostra, que o Estado às vezes se esquece, que a sociedade ignora. Mulheres que fazem da beira-mar seu ofício, sua fé e sua resistência.
É sobre a luta, é sobre a sobrevivência, é sobre o amor, é sobre a dor. É sobre ser mãe.
Feliz Dia das Mães a todas essas gigantes. Que nunca lhes falte o mar, a força e o olhar cheio de afeto para amar.
Compartilhe nas redes sociais
Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br