
Há um silêncio peculiar que precede a imersão. Não o silêncio da ausência, mas o de uma máquina afinada, prestes a reproduzir o primeiro acorde. Adentrar o 111 Music Bar, em Copacabana, é cruzar essa fronteira. O ambiente, assinado por Roberto Kubota e executado com a precisão artesanal da marcenaria Taniguchi, é sóbrio, íntimo, um convite ao recolhimento. Mas a primeira sensação, verdadeiramente, é auditiva. A música não invade; envolve. Cada nota de “Clube da Esquina” parece nascer de um ponto específico da sala, fluindo com uma clareza cristalina. Este não é um bar qualquer. É um Music Bar – ou listening bar – um conceito japonês que o chef-executivo Menandro Rodrigues – já consagrado com o Haru e o UMAI Omakase no andar debaixo – resolveu transplantar com rigor dogmático para o Rio.
“Queimaram o nome de listening bar. Virou conceito de balada, e não é isso”, diz Menandro, 45 anos, com a paciência de quem explica um mantra. A filosofia aqui é simples, porém cara: tecnologia de som Genelec, da Finlândia, curada pelo produtor musical Danny Dee, transforma o espaço em uma espécie de estúdio de gravação vivo. “Não é pra dançar. É pra relaxar, ouvir, se divertir entre amigos sem precisar ficar gritando”, explica. O investimento pesado em acústica e equipamentos é palpável – e audível. É possível discernir cada respiração de Gal Costa, cada nuance do sax de Stan Getz.
Mas Menandro não é homem de apostar em apenas um sentido. Se o som é a alma, a comida é o corpo dessa experiência. “Eu não lido somente com a gastronomia. Eu lido com a cultura”, afirma. O cardápio, criado com Thiago Ferrer, é um diálogo esperto entre a técnica japonesa e a matéria-prima brasileira, servido em porções individuais mas feitas para compartilhar – e em louças japonesas ou de ceramistas do país, um detalhe que revela o nível de cuidado.
A jornada pode começar pela Mix Nuts com Azeitona Recheada com Nabo Takuan, um snack aparentemente simples que explode em camadas de sabor agridoce e umami. Ou pelo Missô Capuccino (R$ 35), uma das criações mais geniais da casa. Servido em xícara, com a espuma perfeita de um café com leite, revela na primeira golada um caldo aveludado de missô e tofu, finalizado com um “espumante” de shiitake. É uma brincadeira sensorial que desconcerta e encanta. Mas a nota que me conquistou como pipoca foi o Edamame & milho doce salteados com manteiga artesanal (R$ 38). Viciante de comer sem parar.

Os pratos seguem nessa linha de invenção respeitosa. O Carapau (R$ 49) chega banhado em um molho citronette onde o gengibre e a alcaparra dançam com o peixe oleoso, um equilíbrio de acidez e profundidade. O Crock Fish (R$ 39), uma comfort food com molho que “estoura na boca”, e a Vieira sobre pão da Slow Bakery (R$ 75 ) com manteiga clarificada e pólen de jataí são demonstrações de que a cozinha, embora separada fisicamente do Haru, carrega o mesmo DNA de excelência.
A coquetelaria, sob o comando de Leonardo Santos, não fica atrás. Fiquei impactada com o drink Dois Mundos (R$ 48), que também é o preferido do Menandro. A base de cupuaçu chega com duas gellys da fruta que, ao se dissolverem na boca, realizam uma brincadeira lúdica entre textura e sabor. É drinque para ser degustado, não apenas ingerido.
Até uma ida ao banheiro vira experiência. Um podcast japonês serve de sonoplastia, e o assento aquecido da privada é um conforto quase perturbador – “não dá vontade de sair”, confesso.
Com apenas 50% das mesas reserváveis – o resto fica para quem chega sem avisar –, o 111 construiu rapidamente seu próprio público. “A ideia era ser a sala de espera do Haru, mas o lugar já está caminhando sozinho”, comemora Menandro, que dorme por volta das 3h todos os dias, tomado pela paixão. “Foi o projeto que mais me dediquei na minha vida”.
E seus próximos passos? O chef, que “ama o que faz”, já mira novos desafios: uma parceria com César Cavalieri para revitalizar a histórica Boutique Xavier, na Tijuca, e um futuro restaurante de peixes e frutos do mar à grelha, com “muita brasilidade”, em Botafogo.
Enquanto isso, no 111 Music Bar, a experiência se completa. Um casal ao lado pede seu sexto pratinho para compartilhar. Dois amigos degustam drinks em silêncio reverencial, ouvindo cada nota de um vinil raro de Djavan e Ivan Lins. Este é o triunfo de Menandro Rodrigues: ter criado um templo onde a música se saboreia, a comida se escuta, e o luxo maior é a atenção plena a cada detalhe. Em um mundo barulhento, oferecer esse oásis de audição consciente e prazer refinado não é apenas um conceito. É uma revolução suave – e deliciosamente audível.
SERVIÇO – 111 Music Bar
Endereço: R. Raimundo Corrêa, 10 – 3º andar, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
Funcionamento: Terça a sábado, de 19h a 1h
Capacidade: 80 lugares
Contato: (21) 96883-5146
Site: https://111bar.com.br/ Instagram: @111musicbar
Fonte do Conteudo: Renata Granchi – diariodorio.com